Cesar Victora fala sobre benefícios da amamentação para a sociedade e sobre conflitos de interesse

Cesar Gomes Victora é Professor Emérito de Epidemiologia na Universidade Federal de Pelotas, Pesquisador do CNPq, além de Professor Visitante das Universidades de Harvard, Oxford, Londres e Johns Hopkins e Membro do Conselho Editorial de várias revistas, incluindo The Lancet. Recentemente, Victora recebeu o Prêmio Gairdner, um dos mais importantes na área de ciências da saúde e que é o principal indicador ao Prêmio Nobel. Também é responsável pela publicação na edição especial da revista Lancet, que fala sobre amamentação no século XXI, trazendo à luz  distintas evidências científicas que cercam o aleitamento materno.

Cesar Victora fará uma palestra, à distância, intitulada “O aleitamento materno no século XXI” no III Encontro para a Promoção, Proteção e Apoio ao Aleitamento Materno do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, que acontecerá de 1 a 3 de agosto, na Faculdade de Saúde Pública da USP, em São Paulo. Ele me concedeu uma entrevista sobre o assunto.

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Viviane: Para muitos, os benefícios da amamentação parecem estar restritos à dupla mãe e bebê. E a sociedade, como ela se beneficia a partir da realização e da manutenção do aleitamento materno?

Victora: Nossa série sobre amamentação na Lancet mostra que amamentar não é importante apenas para a saúde da mãe e do bebê, mas também para reduzir os gastos assistenciais e para promover o desenvolvimento social e econômico via aumento da inteligência e da produtividade. Este é um dos principais benefícios para a sociedade: o desenvolvimento de capital humano. Falar de capital humano é falar de pessoas com mais inteligência, escolaridade, capacidade de trabalho. Todo mundo sabe que pessoas mais inteligentes e produtivas ganham mais e geram mais renda para o país. Em nosso trabalho, o maior já realizado sobre o tema, calculamos qual seria o impacto econômico se todos os indivíduos tivessem sido amamentados por mais tempo. Para se ter uma ideia, o resultado dessa conta revela um ganho de 302 bilhões de dólares ao ano em todo o mundo.

Além de reduzir a mortalidade infantil e prevenir o câncer de mama e ovários em mulheres, aumentar os níveis de amamentação de crianças de até seis meses reduziria custos com tratamento de doenças como pneumonia, diarreia e asma. De acordo com as estimativas levantadas em nosso estudo, a economia para os sistemas de saúde seria de 2,4 bilhões de dólares nos EUA, 30 milhões de dólares na Inglaterra e 6 milhões de dólares no Brasil, para dar alguns exemplos.

Por tudo isso, é cada vez mais importante direcionar recursos públicos para promover a amamentação em nosso país.

Viviane: Parece já ser bem estabelecida a importância do aleitamento materno nos primeiros meses de vida, porém muitos, inclusive profissionais da saúde, posicionam-se contra após uma determinada idade. Sobre a amamentação continuada, gostaria que o senhor me falasse o que justifica de fato estender a amamentação até pelo menos os dois anos de idade.

Victora: Eu acredito que o principal efeito da amamentação prolongada é sobre o cérebro da criança. O leite materno é uma substância viva. Por mais que tente, a indústria alimentícia não consegue copiá-lo. Há vários mecanismos pelos quais o leite humano pode melhorar a inteligência. O mais conhecido são os LPUFA, ou ácidos graxos insaturados de cadeia longa, que são essenciais para o desenvolvimento cerebral. Cerca de 70 a 80% do cérebro se forma justamente nos primeiros 2 anos de vida. Há ainda outros mecanismos, que estão sendo estudados, ligados ao microbioma do bebê em estágio de amamentação, como os recentes estudos que ligam a função do intestino à síntese de substâncias que ativam o cérebro, como a serotonina, as citoquinas e outros metabólitos. Em termos de doenças infecciosas, nossas próprias pesquisas mostram que a mortalidade no segundo ano de vida, em países e áreas pobres, é cerca de 30% maior em crianças não amamentadas do que entre aquelas que continuam a receber o leite materno. A amamentação também reduz infecções e hospitalizações no segundo ano de vida, sem falar em seu efeito protetor para a má-oclusão dentária.

Em resumo, há fortes evidências sobre os benefícios do aleitamento após o primeiro ano.

Viviane: O tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno de 2017 é “Promovendo Alianças sem Conflitos de Interesses”. Como o senhor observa a atuação dos profissionais da saúde no que se refere ao aleitamento materno? Como mudar esse cenário?

Victora: A amamentação é responsabilidade da sociedade como um todo, e não pode ser colocada como uma responsabilidade apenas dos profissionais de saúde. Estes, no entanto, tem um papel fundamental em sua promoção e em seu apoio direto para a nutriz.

Em diversos países, é proibido o financiamento de profissionais pela indústria de alimentos infantis. Não é, infelizmente, o caso do Brasil, onde vemos a forte presença da indústria apoiando congressos e publicações de associações profissionais. Isso sem falar no patrocínio de viagens, congressos e pesquisas para médicos e outros profissionais envolvidos no aconselhamento nutricional de crianças. A própria Organização Mundial da Saúde se posicionou recentemente contra este tipo de patrocínio. Gostaria de ver um posicionamento das nossas associações profissionais e do próprio poder público proibindo este tipo de parceria perversa.

Quer participar do Seminário do III Encontro para a Promoção, Proteção e Apoio à Amamentação? Faça sua inscrição aqui!

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