Bebê pode comer… Danoninho?

Na semana passada, publiquei um texto falando do Mucilon, que teve um impacto bem grande. De um lado, pessoas receptivas às informações que trouxe! Do outro, alguns indignados por estar crucificando o produto, sob argumentos de que “comi Mucilon e sou saudável” ou de que eu estaria julgando quem o usa.

Agora, talvez, eu entre em uma polêmica maior, pois vou falar do Danoninho, um clássico dos anos 80, que surgiu com o slogan “Vale por um bifinho”, e que reina até hoje quando falamos de alimentação infantil. O poder da imagem desse produto como algo ligado à alimentação saudável infantil é enorme.

Mas, então, antes que me chamem de radical ou má em relação às pessoas que compram Danoninho para seus filhos, aqui fica um alerta. As informações que trago não são nada mais do que o que é recomendado nos materiais consagrados sobre alimentação e nutrição infantil, ou seja, não são fruto de minhas experiências pessoais ou mesmo da minha experiência profissional com atendimentos, mas partem de vasta literatura baseada em pesquisas científicas. E, além disso, em nenhum momento estou desmerecendo as famílias que fazem o uso do produto. Aliás, as famílias não são as vilãs. São alvo do marketing aliado a práticas profissionais duvidosas.

Então, tendo esclarecido esse ponto, vamos lá! O que é o Danoninho? Um iogurte? Um doce? Pode ser um pouco de cada, mas, na verdade, ele é nomeado um petit suisse. O petit suisse é um queijo de consistência mole, que é feito pela coagulação do leite por bactérias, enzimas ou coalho. Normalmente, ele é adicionado de frutas e, assim, ganha a cara de iogurte e de sobremesa.

O fabricante do Danoninho trata-o como uma “marca associada à nutrição infantil, cujos produtos da linha são enriquecidos com cálcio, ferro, zinco, fósforo e vitaminas para complementar a alimentação das crianças de idade pré-escolares”. Nesse momento, fica subentendido que é destinado para a faixa etária de 2 a 6 anos. Então, já temos uma informação importante: o fabricante não se compromete com bebês (menores de dois anos). Assim, não é um produto que deveria fazer parte do período de introdução de alimentos dos pequenos, certo? Espero que, com o texto, isso fique mais claro. Ah… Outra observação! Aqui estou falando do Danoninho, mas temos similares do mercado de outros fabricantes.

Como sempre, vamos ler sua lista de ingredientes:

LEITE DESNATADO, AÇÚCAR, PREPARADO DE MORANGO (ÁGUA, FRUTOSE, POLPA DE MORANGO, FOSFATO TRICÁLCICO, CITRATO DE CÁLCIO, AMIDO MODIFICADO, ZINCO, VITAMINA E, FERRO, MALTODEXTRINA, VITAMINA D, ACIDULANTE ÁCIDO CÍTRICO, ESPESSANTES GOMA XANTANA, CARBOXIMETILCELULOSE E GOMA CARRAGENA, AROMATIZANTE, CONSERVADOR SORBATO DE POTÁSSIO E CORANTE NATURAL CARMIM COCHONILHA), CREME, CÁLCIO, CLORETO DE CÁLCIO, FERMENTO LÁCTEO, QUIMOSINA, ESTABILIZANTES GOMA GUAR, CARBOXIMETILCELULOSE, GOMA CARREGENA E GOMA XANTANA.

Depois do leite, o ingrediente em maior quantidade é o açúcar! Apesar do fabricante do Danoninho não declarar o seu teor de açúcar de adição atualmente, rótulo antigo indicava que, dos 6,5g de carboidratos, temos 5,21g de açúcar, o que seria uma colher de chá. Parece pouco, mas vale lembrar que um potinho é consumido em umas quatro colheradas facilmente!

Na sequência da lista de ingredientes, deveria vir o morango, certo? Mas vem algo um pouco diferente: um preparado de morango. Esse preparado é feito de água com açúcar (frutose) e, então, o morango. Assim, temos o açúcar aparecendo em maior quantidade duas vezes antes de aparecer a fruta que vai dar sabor ao petit suisse. Depois disso, o preparo de morango tem uma série de aditivos, sendo 12 no total, entre espessantes, acidulantes, aromatizante e corante. Para terminar, além desse preparando que tem muito mais do que só morangos, ainda temos mais alguns outros conservantes e aditivos. São 28 ingredientes diferentes para se preparar um queijo pastoso com morango que, segundo o que busquei, para se preparar algo semelhante, eu precisaria de leite, morango, açúcar e fermento lácteo.

Veja que aqui nem estou discutindo que não deveria conter açúcar. Mas ter mais açúcar do que morango me faz sentir que estou comprando um produto que, na verdade, tem características bem diferentes do esperado.

Desde 2014, temos um Guia Alimentar para a População Brasileira que classifica os alimentos de acordo com o seu nível de processamento. O documento privilegia os alimentos in natura e os minimamente processados, enquanto desestimula o consum dos ultraprocessados, que são produtos ricos em aditivos, além de normalmente conterem açúcar, gordura e/ou sal. Os alimentos ultraprocessados apresentam a hiperpalatabilidade, ou seja, sabores intensos e “viciantes”, além de estarem associados à epidemia da obesidade. No caso do Danoninho, estamos falando de um produto ultraprocessado e, assim, é bastante questionável sua recomendação ao público infantil.

Mas ele não contém vitaminas e minerais? Se ele tem esses nutrientes, é pelo fato de ser enriquecido artificialmente. 45 gramas de iogurte ou queijo não teriam tanto ferro, cálcio ou zinco. Você pode estar se perguntando como isso pode ser negativo! Tal como falei no texto do Mucilon, todos os nutrientes que precisamos podem vir de uma alimentação bem variada. Não há a necessidade de alimentos enriquecidos para obtê-los e também não precisamos de quantidades excessivas de nutrientes. Mais um ponto importante! Alimentos que contêm cálcio naturalmente não possuem ferro e vice-versa, porque são nutrientes que competem entre si (a absorção não é bem feita). Ter um queijo enriquecido com ferro, além de não trazer vantagens, pode até atrapalhar!


Agora queria falar de como o produto de vende! Hoje, não se usa a ideia de substituir um bife (essa mensagem foi proibida). Porém, a propaganda que existe atualmente na página da marca reforça a importância de darmos autonomia à criança. Veja!


Mas vem uma visão distorcida de autonomia! Fica implícito que fazemos bem ao deixarmos nossos filhos escolherem o Danoninho! Mas autonomia de uma criança de quatro anos para escolher um produto parte do princípio de uma reflexão crítica que fica bastante dificultada diante de um produto colorido, com um personagem bonitinho e propaganda cativante.

O que tiramos disso? A conclusão fica com cada leitor! Mas é importante ter claro que, independente da opção de dar ou não essa sobremesa às criancas, ela não é necessária! Ele fará mal diante de um consumo eventual? Difícil de se responder! Mas pense que, com uma embalagem com 8 potinhos e uma validade relativamente curta, talvez não seja tão fácil cuidar para que não vire um hábito.

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Categorias:Falando um Pouco Sobre...

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6 respostas

  1. Boa matéria. Gostaria que alguém tivesse me dito isso qd meus filhos eram pequenos. Teria evitado tantos problemas…
    A ignorância é prejudicial!
    Abraços, Vivi!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. como dizer isso para os avós, que ainda acreditam em todas as propagandas.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Hoje eu me arrependo de ter seguido o conselho de uma pediatra que me disse para dar danoninho de sobremesa depois dos 6 meses para minha filha.
    Mas com a maninha dela já está sendo diferente, danoninhos só depois dos dois anos!

    Curtido por 1 pessoa

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