Precisamos falar sobre depressão pós-parto

Trago aqui o texto de um convidado, o psicanalista Luiz Fernando Fontes-Teixeira, que traz um olhar sensível para a depressão pós-parto, algo bastante recorrente, mas muito pouco falado. Espero que gostem da contribuição! Boa leitura!

Por Luiz Fernando Fontes-Teixeira 

A incidência de casos de depressão pós-parto é muito maior do que se imagina. Quatro em cada dez puérperas podem apresentar sintomas depressivos – e pelo menos uma entrará em estado severo de depressão. Por esse e por outros motivos, precisamos falar sobre depressão pós-parto!

 

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que cada caso é um caso. Ninguém pode generalizar os motivos pelos quais alguém entra em depressão. Existem diversos fatores evolvidos, desde disfunções hormonais até distúrbios psíquicos. Porém, ainda assim é possível definir alguns elementos decisivos desse tipo de condição.

 

A maioria dos casos de depressão está ligada a traumas ou episódios marcantes que não foram bem compreendidos no momento em que ocorreram. Esses eventos podem ter acontecido em qualquer período ao longo da vida da uma pessoa. Como nem sempre conseguimos absorver esse tipo de situação, recalcamos e esquecemos os afetos que sentimos.

 

Ocorre que o “esquecimento” de um trauma não significa que ele foi totalmente embora. Ele permanece ali, na parte mais obscura da nossa mente e que a psicanálise chamou de “inconsciente”. Quando menos se espera, aqueles sentimentos desagradáveis vêm à tona nos mais variados formatos, como crises de ansiedade, angústias ou mesmo depressão. Portanto, uma depressão pós-parto pode não estar necessariamente associada ao nascimento do bebê, embora apareça justamente nesse momento.

 

Outro aspecto relevante na depressão pós-parto é o desencontro entre a “ideia da maternidade” e a “maternidade real”. Estamos inseridos em uma sociedade que exige uma série de obrigações de uma mãe idealizada pela cultura. Por esse motivo, uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres que sofrem com a depressão pós-parto é o julgamento moral de familiares, amigos e da própria sociedade. Nada parece mais contraditório do que ficar deprimida diante da alegria do nascimento de um bebê. Pois bem, ocorre que, de fato, não existe nada mais contraditório do que o próprio desejo de um ser humano, seja ele qual for.

Nem sempre a maternidade atingirá uma mulher da mesma maneira pela qual ela acreditava que atingiria ou, ainda, como a sociedade esperava que atingisse. Quando há esse desencontro, a depressão pode surgir.

Sadness

Para superar uma depressão pós-parto é importante se dar conta de que sempre haverá desencontros – e que isso faz parte da vida de qualquer pessoa. Ademais, é imprescindível atentar para quando se está alinhada com o próprio desejo, ou, ao contrário, quando se está apenas respondendo às demandas de uma sociedade que idealizou o papel da “mãe perfeita”. Não existe perfeição na maternidade, nem em qualquer esfera da vida humana. Tomar consciência disso já é um importante e decisivo passo para dissolver as amarras da depressão. O resto, conquista-se aos poucos e, é claro, com um bom trabalho de análise!

Luiz Fernando Fontes-Teixeira é psicanalista. Doutor, Mestre e Licenciado em Filosofia. Desenvolve pesquisas sobre as relações entre Psicanálise, Filosofia, Comunicação e Educação. Interessa-se pelo estudo da diferença e pela crítica da cultura contemporânea.

E-mail: luiz.fernando@mail.com. Website: http://www.luizfernandofontesteixeira.com.br.

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Categorias:Falando um Pouco Sobre...

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4 respostas

  1. Muito bom!! Conheço muitas mães que literalmente surtaram pelo simples fatio de acharem que teriam de alcançar a perfeição no quesito maternidade! Parabéns pelo conteúdo|!

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  2. Muito bom texto! Esse assunto deveria ser mais divulgado, muitas mães sofrem sem saber e são julgadas pela sociedade! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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