Seu filho está crescendo e ganhando peso? Entenda as curvas de crescimento

Uma das maiores causas de ansiedade materna é o ganho de peso insuficiente do bebê. Isso também é uma das justificativas (nem sempre correta) para muitos pediatras prescreverem o uso de fórmulas industrializadas.

Eu senti isso na pele nos primeiros meses de vida da Manu, com maior intensidade do segundo ao quarto mês dela. Ela nasceu com 40 semanas e com o peso adequado (3120g), diminuindo para 2900g na saída da maternidade. No primeiro mês, os valores da balança faziam a pediatra sorrir, mas, depois disso, sempre via uma ruga de preocupação em seu rosto. Apesar dela nunca ter sugerido complemento, eu saía da consulta achando que estava fazendo algo de errado (nunca sabia se ela tomava de fato o leite posterior pois ela ficava muito tempo no seio mamando e dormindo em um ciclo interminável). Além disso, o perfil de evolução do peso dela começar a ser associado com a alegria à proteína do leite de vaca.

Lá pelo 4o mês, consegui mandar embora das nossas vidas esse fantasma do baixo peso por assumir que esse era o perfil dela e que ela estava ótima assim. Mas percebi que muitas mães passam por isso e esse fantasma, em vez de sumir, vai ficando cada vez maior. Então, vamos entender como funciona o ganho de peso e o crescimento de um bebê?

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Primeiro, vamos olhar para os gráficos (ou curvas) de crescimento. Em geral, usamos o gráfico que relaciona (1) o peso com a idade, (2) o comprimento com a idade e (3) o peso com o comprimento. Sempre é bom ter certeza que o seu médico está usando o mais atualizado, ou seja, a da Organização Mundial da Saúde, pois ele é baseado em informações de bebês que tiveram aleitamento materno exclusivo até o 6o mês (e nascidos a termo, ou seja, de 38 a 42 semanas). Surpreendentemente, me deparo com profissionais que ainda usam gráficos antigos, produzidos com informações de bebês que usam fórmulas. Porém, não podemos esquecer que essa população analisada pela OMS não é a brasileira. Por isso, temos que ter um olhar ampliado antes de falar que o bebê está bem ou mal somente em função desses gráficos. Faça o download aqui dos gráficos de crescimento da OMS.

Avançando mais um pouco, cada gráfico possui diversas curvas, que estão em escore Z ou percentil (os números que se encontram ao final de cada curva), que são equivalentes entre si. Aqui, vou falar em percentis. Na maioria das curvas, há os percentis 3, 15, 50, 85 e 97. Você sabe o que isso significa? Imagine 100 bebês saudáveis da mesma idade e sexo, colocados em ordem crescente de peso (do menor para o maior). Se o seu bebê estiver no percentil 50 do gráfico do peso x idade, significa que ele tem o peso similar ao bebê de número 50. Se o seu bebê estiver entre os percentis 3 e 15, significará que ele está entre o 3o e 15o lugares desses bebês saudáveis.

Mais uma vez, vejo muitos profissionais considerando ideal somente quando a medida do bebê está no percentil 50 ou acima dela e isso é um erro pois é impossível esperar que todos sejam tão parecidos. Se há tantas curvas, é para contemplar essas diferenças entre as crianças.

Vou explicar rapidamente os diferentes tipos de gráficos:

Peso x Idade – Com esse gráfico, vamos saber como o seu bebê está em relação a tantos outros com a mesma idade. Admitimos que, até os 24 meses, esse seja um bom indicador do ganho de peso porque as questões genéticas e ambientais ainda não são suficientemente intensas para produzir diferenças intensas no bebê, que vão superar o que esperamos do seu aumento do peso a cada mês. Segundo o Ministério da Saúde, esse gráfico é amplamente utilizado para avaliar a desnutrição, porém o déficit de peso para a idade observado pontualmente não determina se o quadro é recente ou de longo prazo. Por desconsiderar o comprimento, é necessário que a avaliação seja complementada por outro índice antropométrico. O ideal é que o bebê esteja acima da linha mais baixa (p3); abaixo dela, indica-se baixo peso. Entre o p3 e p15, chamamos de risco para baixo peso.

Comprimento x idade – Da mesma forma que o anterior, vamos avaliar com esse gráfico qual o tamanho do seu bebê comparando-o a outros da mesma idade, também partindo do princípio de que a genética está contemplada nessa amplitude do gráfico. É considerado adequado o percentil 3 em diante.

Peso x comprimento – Apesar de muitas pessoas não olharem esse gráfico, considero-o fundamental, pois conseguimos entender como está o peso de um bebê para o tamanho que ele possui, dado que ele é naturalmente menor ou maior. Ele mostra tanto o excesso quanto o déficit de peso para determinada estatura, sendo sensível às alterações nas variáveis que o compõem. Para a minha filha, esse gráfico sempre dizia muito (era o meu alívio), pois a Manu estava entre os percentis 3 e 15 nos gráficos anteriores e quando olhava a relação do peso com o comprimento, ela estava no percentil 50, ou seja, era o peso mais do que esperado para uma menina pequena.

IMC x idade – relaciona o Índice de Massa Corporal com a idade. Normalmente, substitui o gráfico do peso x comprimento a partir dos 5 anos.

Veja abaixo as classificações para esses gráficos!

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Vamos, agora, olhar uma criança (sexo feminino) ao longo de 3 meses para entender suas curvas?

Mês 1 – 3,6 kg e 51 cm

Mês 2 – 4,6 kg e 54 cm

Mês 3 – 5,0 kg e 57,5 cm

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Incluindo essa bebê nos gráficos, ela vem ganhando peso ao longo dos meses, com maior intensidade no segundo quando comparada ao terceiro mês. Isso já poderia ser o suficiente para muitos pais e profissionais ficarem em estado de alerta. Afinal, 400 gramas em 30 dias é muito pouco, não é? Afinal, são menos de 15 gramas por dia… Não, não é necessário alarme por conta desse resultado somente. Se olharmos o gráfico do peso x comprimento, ela estava um pouco abaixo do p15, depois ficou um pouco acima e, então, voltou ficar abaixo: uma oscilação bastante comum e que mostra que essa bebê tem um padrão para variar seu peso entre o p3 e o p15.

Quando olhamos o comprimento x idade, temos algo muito parecido: uma bebê que encontra-se, principalmente, entre o p3 e o p15. E olhem que interessante: no mês seguinte àquele com ganho de peso maior, a bebê cresceu um pouco mais. Isso é muito comum: às vezes, engorda-se mais para, então, crescer mais (e aí o ritmo do ganho de peso não acompanha o crescimento mais intenso daquele momento).

Para confirmar que tudo caminha para indicar que os padrões do peso e do crescimento estão em uma situação esperada, olhemos o gráfico do peso x comprimento. A bebê fica ao redor do p50, ou seja, o peso aparentemente reduzido é compatível com uma bebê que não é tão grande.

Evidentemente, qualquer profissional que avalie essa bebê não irá se basear somente nas informações de peso e comprimento. O número de vezes que faz xixi e cocô, presença de infecções e de outras doenças e sinais de atraso (reais) no desenvolvimento geral precisam ser SEMPRE avaliados.

Por isso, os gráficos não devem ser interpretados sozinhos, sem avaliação física e entrevista com a família. As classificações muito baixas (abaixo do percentil 3) e/ou quando um bebê “cai” abruptamente ou constantemente no gráfico indicam que precisamos olhá-lo com mais cuidado. Quando isso ocorre e existindo algum risco ao bebê (se tem algum sinal de que haja algum comprometimento), temos que fazer algo. Sobre isso, já falei em um post anterior: há várias alternativas antes da fórmula. Porém, não precisamos esperar que os bebês ganhem 1 kg ao mês ou cresçam 5 centímetros sempre. O desenvolvimento não é linear: ele é mais intenso nas primeiras semanas e meses e vai diminuindo com o tempo. Então, é importante olhar para o bebê para além do seu peso.

Situações que requerem atenção:

  • Bebês que se encontram abaixo do percentil 3 (antes, repetir medidas para descartar possíveis erros)
  • Bebês que vêm “caindo” constantemente com relação aos diferentes percentis (exemplo: bebê que estava acima do percentil 50, migrou para baixo e, em seguida, caiu para o percentil 15)
  • Bebês que não ganharam peso (ou diminuíram) e não cresceram (antes, repetir medidas para descartar possíveis erros)
  • Bebês que vêm subindo rapidamente na curva de peso x idade e/ou na de peso x comprimento (em especial, aqueles que não se encontram em aleitamento materno exclusivo)
  • Bebês acima do percentil 97 na curva de peso x idade e/ou na de peso x comprimento (em especial, aqueles que não se encontram em aleitamento materno exclusivo)

Referências:

Orientações para a coleta e análise de dados antropométricos em serviços de saúde

Protocolos do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional – SISVAN na assistência à saúde

 

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