O adulto e a birra infantil

Existem dias em que eu acordo inspirada para escrever e, depois de 3 minutos na rede, já acho um prato cheio para fazer diversas de colocações.

Agora, aconteceu exatamente isso! Acordei com uma vontade de falar sobre o sono infantil e sua relação o bem-estar da criança (prometo que farei isso assim que tiver mais um tempinho), mas me deparei com um conteúdo que me deixou entalada.

No dia 25 de fevereiro, no programa Bem Estar, da rede Globo, foi veiculada uma reportagem que, segundo o que estou copiando aqui da página do programa, intitula-se “Birra de crianças deve ser tratada com ‘desprezoterapia’”. Começa-se mostrando a cena clássica de uma garota de 3 anos chorando, fugindo e batendo enquanto a mãe insistia para que ela parasse. A solução dada é a de ignorar e esperar passar, o que foi chamado de “desprezoterapia”, como uma forma da criança aprender a se comunicar em vez de chorar, já que ela faria isso, principalmente em público, para constranger seus pais e forçar a ter aquilo que ela quer.

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Agora, senta que lá vem a história!

Começando a reportagem, a garotinha realmente está se descabelando e, como o narrador próprio diz “contra a vontade, a menina cede”. Cedeu para fazer o que? Tirar uma foto! Provavelmente para alguém da equipe de reportagem que ela nunca viu. Então, o que temos aqui: uma criança pequena em uma situação diferente da sua rotina, cercada de pessoas estranhas, sendo solicitada a fazer coisas simples na perspectiva de um adulto, mas que não combinam com a forma de agir dessa idade. De modo muito inteligente, a mãe da menina a compara com a irmã mais velha, falando que a outra é mais fácil porque aceita. Sinto muito em dizer que isso é normal e extremamente desejável, porque é sinal que seu bebê cresceu. Realmente você não verá tão facilmente uma criança de sete anos se jogando no chão, mas a de dois, três anos está aprendendo os caminhos para se afirmar (leia nosso texto sobre o terrible two). E aí entra o adulto em cena! O quanto tentamos fazer com que os nossos filhos façam algo que, no fundo, não são necessárias? Naquele caso, era tirar a foto. A mãe que combinou com a televisão que participaria da reportagem com todos os detalhes e esperar que uma criança dessa idade simplesmente se enquadre ao que ela desenhou na cabeça é, inclusive, injusto. Você gosta de ser colocado em situações que não te agradam, sem que isso tenha sido combinado com você? Provavelmente, não! Mas, como um bom adulto (e isso, de certa forma, até faz parte da nossa sobrevivência dentro da sociedade), você engole alguns sapos e, principalmente, se é algo bobo, como tirar a foto, você vai lá e dá um sorrisão amarelo-natural. Isso é tão automático que nem percebemos ao longo do dia o quanto fazemos coisas a contragosto. Mas a criança percebe e, se pensarmos, ela é constantemente direcionada a fazer algo. Antes que você me chame de exagerada… Sim!!!! Existem situações importantes em que não dá para abrir mão. Sempre uso o exemplo de escovar os dentes, que é algo onde empacamos muitas vezes aqui em casa. Não dá para simplesmente a Manu falar “não quero” e eu responder “tudo bem, vamos ficar sem escovar”. Precisa escovar e não cabem ali muitas outras possibilidades (claro que a forma como você conduzirá a criança a escovar os dentes pode ser mais fácil de obter uma concordância ou não, mas isso é outro post). Mas, quantas vezes queremos algo que, lá no fundo, nem seria tão necessário e, mais ainda, parte do princípio que eu sei mais sobre o que essa criança precisa do que ela mesma? É a insistência para tirar foto ou beijar alguém, para comer tudo, para colocar o casaco (já pensou que, se ela sentir frio, ela já tem condições de avisar?), para parar de brincar e sair logo porque você está atrasado…

Concordo com a pediatra da reportagem quando ela fala que precisamos ajudar a criança a aprender a se comunicar. É, de fato, um processo de aprendizagem. PROCESSO. Leva meses, anos… Tendo atitudes radicais, como usar de violência verbal ou física ou, como foi sugerido, desprezar, talvez até condicione sua criança a se segurar. Talvez, não. Ou ela irá ser vencida pelo medo de uma agressão (e isso impacta de uma forma muito negativa ao longo do seu desenvolvimento) ou ela vai continuar fazendo as mesmas coisas até a fase ir passando, ou seja, ela começar a desenvolver a sua capacidade de diálogo, argumentação e, até, sua tolerância. Mas, dessas formas, estamos estimulando que a criança aprenda a se comunicar? Eu, sinceramente, não me comunico com quem me despreza (muito menos com quem me agride)! Então, qual a solução? Nada simples, por mais que eu vá escrever em poucas linhas. Ter paciência, acolher e (algo que venho aprendendo com o tempo) evitar o momento em que a criança chega ao seu limite. Se eu sei que a situação está se conduzindo para uma explosão de raiva ou de choro, tento interromper o que causa o estresse, distraindo com alguma outra atividade que a atraia. Conversar com a criança também é uma forma, obviamente, muito importante para ela exercitar o diálogo. Então, tem que escovar o dente? Vamos explicar todas vezes o motivo de precisar fazer isso! Não adiantou e a criança explodiu? Mostre que você está com ela. Desça à sua altura para conversar, fale com empatia. Se ela permitir contato físico, faça um carinho, abrace. Não vai ferir sua autoridade falar para ela que você a entende. E não se trata de ceder ou não à birra. Se ela chora porque quer um brinquedo que você avisou que não irá comprar, você continua sem comprar independente da birra. Mas pode conversar dando alternativas ou ideias. Ela ou alguém já tem um brinquedo semelhante? Poderiam pensar em comprar o brinquedo em outro momento? Ou, algo que eu acho que mais funciona nessa idade, é propor algo bem diferente do assunto que dê prazer à criança. Vamos na piscina de bolinhas? Vamos visitar a vovó? Geralmente o estresse regride com uma velocidade absurda!

Carinho não faz mal. Carinho não estraga ninguém. E carinho é diferente de mimar. Geralmente, o mimar está atrelado a bens materiais,enquanto o carinho é uma demonstração de amor que não depende de termos dinheiro.

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