Basta um “Eu Digo Não”?: uma reflexão sobre a campanha contra a obesidade infantil 

Uma campanha de uma grande empresa que comercializa planos de saúde contra a obesidade infantil foi lançada com o nome “Eu Digo Não”. Em que consiste essa campanha? É um estímulo aos pais a aprenderem a resistir quando os filhos pedem doces, refrigerantes, salgadinhos e outras guloseimas. Um vídeo lançado fala que a briga contra a obesidade infantil é com gente muito poderosa… Nossos filhos! E, então, mostram-se crianças falando sobre como conseguem convencer os pais a lhes darem o que querem. Uma entrevistadora explica “brilhantemente” o que é diabetes e colesterol para essas crianças e, mesmo assim, elas declaram que não vão mudar. O vídeo já lança, então, a mensagem de forma certeira “Pais, seus filhos não vão mudar… Vocês que precisam ser fortes para dizer ‘não'”. Faz muito sentido uma empresa que vende convênios de saúde trazer a responsabilidade aos pais para seus filhos não adoecerem no futuro. Essas crianças realmente vão precisar da assistência à saúde no futuro e poderão contar com a empresa que havia dado o alerta. E a empresa mostra-se preocupada com o futuro das nossas crianças.

É altamente sensibilizador e todos ali devem se ver um pouco culpados porque muitas vezes somos mais permissivos do que gostaríamos. Mas, o nosso inimigo é a criança? Ela que é perversa e manipuladora para ter o que quer?


Vamos pensar na vida dessa criança perversa. E na vida da sua família. Dos seus colegas de escola. Dos lugares onde ela vai. O que a motiva a querer tantas coisas que lhe fazem mal (e, por isso, não deveriam ser produzidas e comercializadas)? Essa criança nasce sendo exposta a uma série de produtos e publicidade, desde a embalagem da fralda descartável até os brinquedos da Peppa Pig (tente achar uma barraca ou piscina de bolinhas sem personagem). Tente observar quantos produtos infantis possuem personagens vindos de desenhos e filmes… É contagiante (inclusive para nós, adultos… Ou você não quis ter os Minnions do Mc Donald’s?).

Mas é aí que vem a justificativa do projeto. O pai precisa por limite. Ok. Não deixe seu filho ver TV. Também não passe com ele na ala do mercado com as guloseimas. E não vá ao cinema com ele. Também evite as festas infantis. Ah… A maioria das escolas também é um local onde seu filho aprenderá a querer todos esses produtos… Melhor não ir. Enfim, coloque seu filho em uma bolha e seja feliz. Ah… Mas não se esqueça de morar nessa bolha com ele. Afinal, você precisa dar um bom exemplo. Mas, mantenha-o afastado dos avós, tios e padrinhos. Esse pessoal é louco para dar um doce para a criança alheia.

Agora que você conseguiu se blindar, prepare-se para as críticas. Você vai ser olhado torto por onde passar, ok? Mas seja feliz!

É isso que estão pedindo nessa campanha? Não seria um pouco mais lógico que não bombardeassem todo nosso caminho com coisas que precisaremos dizer “não” a todo momento?

Fui bastante irônica nesse texto para mostrar que não é nada fácil fazer o que a campanha pede. E, mais do que isso, é um pedido que demanda mais ou menos em função de diversos fatores dessa família, como renda, escolaridade, aspectos sociais e culturais. Uma família que consegue viver em um condomínio fechado em um bairro nobre certamente terá um contexto diferente daquela mãe solteira que trabalha fora o dia todo e só vê o filho na hora em que ele vai jantar.

Volto, então, ao começo do meu texto. Se temos certeza de que tudo isso está deixando as crianças doentes (ou as deixará), por que isso está presente em todo o nosso meio de forma tão explícita? É compatível com um consumo esporádico que é tanto preconizado, inclusive pelos seus fabricantes? Quem é o nosso real inimigo?

Só para fechar, uma das atividades dessa campanha é uma oficina culinária com o tema do Mickey Mouse.

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Categorias:Falando um Pouco Sobre...

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  1. Por que as crianças param de comer a partir dos dois anos?

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