O “leite” sem lactose da lata amarela e a APLV

No mês passado, foi lançada por uma grande empresa de produtos alimentícios infantis, um composto lácteo em pó sem lactose. Inclui-se na campanha um vídeo em que algumas mães de crianças com intolerância contam as dificuldades de cuidar dos seus filhos e recebem um “presente” da empresa: um leite sem lactose. Muito importante para essas famílias, né? Afinal, ter um leite que não provoque desconforto nas crianças é um alívio.

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Mas, será que está tudo bem mesmo?
Entrando na fanpage do empresa, há quase dois mil comentários relacionados a essa campanha. Muitos elogios. Mas também não foi difícil ler reclamações. Pessoas relatando que seus filhos passaram mal ao introduzirem o produto sem lactose. Além disso, constam vários comentários sobre o uso aleatório do produto entre menores de dois anos (inclusive entre menores de 12 meses).
Voltando às crianças que passaram mal, provavelmente aconteceu algo muito comum: confusão de diagnósticos. Alergia à proteína do leite de vaca (APLV) e intolerância à lactose são confundidas entre si e tratadas como sinônimos (leia aqui a diferença entre os problemas). A consequência desse engano pode ser bastante grave, inclusive, fatal. Um produto sem lactose continua com todas as proteínas existentes no leite, desencadeando uma resposta alérgica à criança com APLV.
Você pode estar pensando que essas famílias são mal-informadas e deveriam tomar mais cuidado com a doença do seu filho. Mas, como isso é possível quando a grande mídia transmite informações erradas e, inclusive, profissionais da saúde fazem diagnósticos incorretos? Se você, como eu, consegue ter certeza de que seu filho tem alergia (e não intolerância), mais do que mães cuidadosas que buscam s melhores informações, somos pessoas de sorte e com um bom acesso ao serviço de saúde e às informações. Infelizmente, isso não está à disposição de forma igualitária a todos. É uma realidade, apesar de indesejada.
Aí, aparece um comercial, extremamente cativante, com mulheres emocionadas, que pediram por multitecidos que seus filhos pudessem tomar e foram atendidas. Isso nos pega pela emoção e pela identificação (principalmente quando se trata de uma mãe), mostrando uma luz no fim do túnel.  E deve ter vindo a pergunta para várias mulheres: será que pode ser a solução dessa vez? Ele é, inclusive, mais barato do que outros compostos em pó sem leite. É muita gente confia na marca!
Não fomos sensibilizados pela propaganda? Muitas pessoas foram. Caso contrário, não existiram tantos comentários sobre o assunto. E por que um produto que deve ser recomendado mediante prescrição de profissional da saúde ganha uma campanha aberta em nível nacional de vários minutos?
Não podemos esquecer do poder da marca. Há décadas, ela tem uma força significativa, sendo associada, erroneamente, como sendo a melhor opção para bebês. Inclusive, ainda é usado (mesmo existindo muita informação mostrando seus malefícios) como substituto do leite materno. Essa marca é usada em uma variedade de produtos, desde leite integral (incluindo o UHT), compostos lácteos (que, inclusive, são adicionadas de açúcar), iogurtes, leite fermentado. Qual a diferença entre ele e os similares? Pouquíssima ou nenhuma. O leite integral é como outro qualquer, enriquecido artificialmente de vitaminas e minerais), os compostos lácteos (aquele específico para idades) não seriam necessários para uma criança que apresenta uma alimentação adequada e que é totalmente capaz de obter nutrientes de outras formas e usar um leite integral comum), os iogurtes possuem açúcar, o UHT passa pelo mesmo processamento de qualquer outra caixinha.
Parece que alguém está se beneficiando de todo esse poder e da confusão entre as pessoas. É uma marca associada à primeira infância. Enquanto isso, dados concretos sobre prevalência de intolerância nessa faixa etária são escassos (qual a quantidade, de fato, de crianças que irão se beneficiar?) e, quando comprovado o problema, ele precisa ser corretamente orientado a fim de se evitar a intensificação do quadro. Não basta adquirir aleatoriamente produtos sem lactose. E nunca é demais reforçar: propaganda de produtos lácteos para lactentes é proibida. Esse produto, apesar de não se definir como apropriado para bebês, é amplamente consumido por esse grupo e, assim, uma propaganda beneficia-se muito a partir dessa população.

Leia a segunda parte da discussão desse assunto, aqui!

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Categorias:Experiências e Vivências

4 respostas

  1. esse comercial foi feito de maneira muito comovente, e inclusive parentes meus que sabem q meus filhos tem alergia vieram perguntar se eles nao poderiam tomar esse leite, eu sinceramente acho importante as varias opções para quem te intolerancia, mas a aplv precisa de atenção tbm…

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