Bebês que não comem carne: há algum problema nisso?

Por Viviane Laudelino Vieira

Ao iniciarmos a alimentação de sólidos dos bebês, o Ministério da Saúde recomenda que comecem a ser oferecidos alimentos do grupo das carnes (incluindo bovina, suína, peixe, aves entre outras), miúdos e ovos, tanto no almoço como no jantar. Esses alimentos são importantes fontes de proteínas, nutriente fundamental para esse período de intenso crescimento e desenvolvimento. Tais proteínas apresentam um alto valor biológico, ou seja, possuem a maioria dos aminoácidos necessários para o ser humano. Além disso, as carnes e os miúdos são considerados fontes de ferro com elevada biodisponibilidade (melhor aproveitado pelo nosso corpo), de vitamina B12 e de zinco.

Porém, muitas pessoas, por diversos motivos, são vegetarianas/veganas, não consumindo carnes. No Brasil, cerca de 10% dos adultos declaram-se vegetarianos. E, nessa situação, como proceder em relação à introdução de alimentos de bebês dessas famílias? Também não podemos esquecer que, mesmo não sendo uma família com restrição de carnes, a aceitação dos bebês com relação a esses alimentos é variável e, algumas vezes, pode ser baixa, tendo em vista sua consistência mais firme, que dificulta a ingestão por alguém que está aprendendo a mastigar e ainda não possui dentes. Precisamos nos preocupar com esses bebês?

A resposta, como muitos dos assuntos relativos à alimentação é “depende”. Quando estamos falando da saúde de adultos, já existem registros que mostram que eles podem conseguir se manter um excelente estado nutricional, mesmo sem o consumo de carne. Por vezes, a saúde de um vegetariano pode ser até melhor do que a de um onívoro típico. Porém, quando estamos falando de crianças e, ainda mais, de bebês, ainda temos pouquíssimos dados que deem suporte para afirmar que podemos ficar tranquilos em relação a uma alimentação sem carne. Por outro lado, isso não significa que esses bebês estão condenados a terem problemas. O que precisamos é proporcionar uma boa avaliação dessa criança para identificarmos como vem evoluindo o seu desenvolvimento e como se mantém a ingestão de outros alimentos. Assim, em qualquer sinal de que algo está alterado, pode-se agir rapidamente.

Mas, quais seriam os riscos relacionados ao consumo insuficiente ou ausente de carnes?

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O primeiro deles (e o mais temido) é o risco de desenvolvimento da anemia. O bebê, próximo aos seis meses, apresenta a menor reserva de ferro no seu organismo. A literatura indica que metade das crianças com até dois anos pode ter anemia, uma doença bastante preocupante nessa faixa etária porque pode causar problemas irreversíveis no sistema imunológico, desenvolvimento neurológico, psicomotor e cognitivo. Se houver algum déficit de desenvolvimento nesse período, ele poderá não ser recuperado. Esses são os motivos para o Brasil ter o Programa Nacional de Suplementação de Ferro para bebês de 6 a 24 meses. Por meio da alimentação, também é possível obter ferro pelo consumo de leguminosas (feijão, ervilha, lentilha, soja), que possuem o ferro não-heme (menos absorvido). Cereais integrais, verduras verde-escuras e sementes também possuem ferro, que apresentam ainda maior dificuldade para aproveitamento. Para potencializar sua absorção, é fundamental incluir fontes de vitamina C na mesma refeição e evitar, por outro lado, alimentos ricos em cálcio (exceto leite materno) e a própria gema do ovo. O leite materno, apesar de ter uma quantidade pequena de ferro, é um alimento que possui o melhor aproveitamento desse nutriente.

A vitamina B12, presente somente em alimentos de origem animal, também está associada com o desenvolvimento da anemia, por ser importante para a formação dos glóbulos vermelhos. Por sua vez, mesmo sem o consumo da carne, o bebê poderá adquirir o nutriente pela ingestão do leite, inclusive o materno. Em caso de veganismo, realmente vale a pela ponderar a necessidade de suplementação.

Outro nutriente importante e existente nas carnes é a proteína. Porém, é mais difícil existir uma deficiência no seu consumo. Outros alimentos de origem animal são importantes fontes de proteína com alto valor biológico e, mesmo assim, vegetais também contêm uma boa quantidade do nutriente, como as leguminosas, os cereais integrais e as oleaginosas (castanhas, nozes, amendoim e pistache). Essas últimas não são recomendadas até os 12 meses de idade. Para melhorar a qualidade da proteína vegetal, recomenda-se a combinação de leguminosas com cereais.

Outro nutriente que pode se apresentar insuficiente na alimentação dos bebês que não consumem carne é o zinco. Ele também se encontra presente em maior quantidade nas carnes e, quando insuficiente na nossa alimentação, pode desencadear infecções, lesões na pele e diminuição no paladar. As mesmas fontes de proteínas também possuem quantidades significativas de zinco.

Diante de tantas informações e possibilidades, como já foi comentado acima, precisamos olhar com muito mais carinho para o bebê que não come carne, auxiliando a família a prover alimentação bastante variada e tomando cuidado com possíveis interações entre nutrientes que possam atrapalhar sua absorção. Caso a família coma carne e o bebê tenha uma dificuldade de aceitação, isso pode ser trabalhado com mais detalhes durante as consultas com o nutricionista, para discutir o modo de preparo e a forma de oferecer o alimento. Mais complicado do que existir a restrição especifica para um determinado alimento, é a situação de uma criança com uma alimentação monótona e rica em produtos extremamente processados e com baixo valor nutricional.

 

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