Um dia de descobertas

 

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Por Viviane Laudelino Vieira

Para falar do tema de hoje, tenho que voltar ao dia 31/07/2013, quando minha filha nasceu.
Manu nasceu em uma manhã linda de inverno. Foi uma cesariana feita no Santa Joana, mas essa parte merece ser contada melhor em outro post junto com a história de estar grávida.
Ela não teve nenhuma intercorrência durante o parto, nasceu prestes a completar 40 semanas e com 3120g. Como rotina no hospital, fomos separadas imediatamente após um breve contato do meu rosto com ela, que seguiu para o berçário e, eu, aguardei o término da cirurgia (a pior parte porque todo mundo vai embora e aí o tempo demora mais a passar) e fui para a recuperação.

Passadas aproximadamente 6 horas do seu nascimento, já no quarto, Manu foi trazida até mim e uma das primeiras coisas que fiz foi amamentar. Ou tentar. Que susto levei quando percebi que não era nada fácil como eu orientava às minhas pacientes! Eu achava que meus bicos eram ótimos e, na hora, já percebi que um era mais curto. E a Manu não conseguia fazer a pega. Ficava lá encostada, mas nada de sentir que estava amamentando. As pessoas ao redor falavam que era normal, mas a tensão só aumentava e eu não sabia o que fazer. Com certeza, se alguém tivesse perguntado naquela hora se eu queria oferecer uma fórmula, teria falado sim porque a possibilidade de achar que ela estava com fome era terrível, mesmo sabendo que bebês têm uma reserva energética para esses primeiros momentos.

Só consegui, de fato, amamentar, na manhã seguinte, quando ficamos ela e eu sozinhas. Mesmo assim, com muita dificuldade e com a sensação que não saia nada. As enfermeiras do hospital, em cada tentativa, me ajudavam (mas também ofereceram algumas sugestões duvidosas, como o bico de silicone) para fazê-la pegar o mamilo. Meu leite “desceu” no final do segundo dia e foi justamente quando a Manu parecia mais ávida para mamar.
Viemos para casa um dia depois e, assim que ficamos só nós três, Manu, papai e eu, começamos a realmente nos entender e a amamentação fluiu relativamente bem. Nunca tive inflamações, mamas ingurgitadas, fissuras exageradas… E os dois seios mostraram-se perfeitos!
Passados alguns meses, veio a primeira suspeita de APLV (alergia à proteína do leite de vaca). Manu tinha eventualmente traços de sangue nas fezes e, com isso, fiz praticamente 5 meses de restrição alimentar por estar amamentando (e por desejar continuar). Temos uma gastro que é única. Ao contrário da maioria dos médicos, que queria me tirar, além do leite, ovo, soja, castanhas e o mundo, ela me fez acreditar que eu poderia voltar a tomar leite (e pediu para eu parar de vasculhar fraldas cheias de coco). Acreditava que ela não teria mais nada, mas pediu para que ela não consumisse nada ainda. Assim o fiz e até o aniversário de 1 ano, Manu manteve-se sem contato com leite. Mesmo sem o risco de alergia, provavelmente não iria ter oferecido leite antes.
Após isso, comecei a testar algumas coisas: pão caseiro com um pouco de iogurte na massa, depois uma panqueca… E tudo indo bem. Até que, um dia, ela comeu legumes na manteiga e ficou com manchas vermelhas em torno da boca. Logo passou, mas achei estranho. Depois, um pouco de molho branco e a mesma reação. Mandei fotos para a médica e, semanas depois, fizemos o teste no hospital com a ingestão de leite e, tristemente, o diagnóstico foi confirmado com as tais manchas vermelhas. A partir disso, Manu voltou à restrição, o que não é difícil de lidar com a idade dela e, em alguns meses, devemos repetir o teste.
Como nutricionista, antes de ter a Manu, tinha trabalhado muito pouco com APLV. Depois da primeira suspeita, como qualquer mãe, fui buscar informações. Já ouvi e li muita coisa e, provavelmente, escreverei outro dia um texto mais informativo sobre a alergia. Mas, resumidamente, já me falaram da associação com cesárea (o caso dela), com pais alérgicos (isso é mais comprovado… E eu também tenho rinite alérgica), com o consumo de leite por parte da mãe, com o tipo de leite comercializado atualmente e, não menos importante, com a exposição precoce do bebê ao leite de vaca. Com relação a esse último item, sempre enchi a boca para falar que ela toma leite materno desde sempre.
Aí, um fantasma bem pequeno que me assombrava de vez em quando, começou a crescer. Será que ela nunca tomou nada na maternidade? Ela ia e voltava tantas vezes do quarto e não era uma bebê que ficava chorando, antes da apojadura. Sempre se ouve essas histórias que as maternidades oferecem leite e nós nem ficamos sabendo…
Resolvi buscar o prontuário. Mando um e-mail e nada. Ligo e me mandam um formulário. Preencho, envio e nada! Cobro. Pedem para esperar. Cobro de novo… Está pronto! Fui buscar hoje e recebi uma cópia digitalizada. Assim que cheguei ao computador fui ler páginas e páginas sobre a cirurgia, procedimentos e, aparentemente, tudo dentro do esperado. Até chegar numa ficha do berçário: primeiro dia, horas antes de ter contato comigo no quarto, recebeu 10mL de leite artificial. Qual motivo? Nada escrito! Por mais que já esperasse isso, foi um baque. Poderia ter pedido ao meu marido ficar feito um cão de guarda para não deixar fazerem nenhum procedimento nela, mas não fiz isso. Poderia ter avisado antes. Poderia ter sido mais incisiva no questionamento. Corrigir o que aconteceu, não dá. Não dá para saber se, sem esse leite, hoje ela não teria APLV. Ainda não tenho, concretamente, ideia sobre o que vou fazer diante dessa descoberta. O post, se for lido por algumas mães, já será um alerta. Mas quero levantar a bandeira de que procedimentos como esses não devem ocorrer sem justificativa e autorização. Isso pode dificultar a vida das maternidades porque os bebês ficarão bem mais chatos e comunicativos. Mas o esforço vale a pena se o que está em jogo é a saúde de muitos recém-nascidos. Temos materiais concretos que defendem a amamentação. Estudos que indicam as consequências da exposição precoce ao leite de vaca. E, hoje, só consigo perguntar: por quê?

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Categorias:Experiências e Vivências

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